Ensaio
Cessna 210 II - Carenado

Texto e fotos: Thiago Oliveira Boareto
Data: 06/08/2003


         Quando recebemos o convite da Carenado para ensaiar seu mais novo produto, o Cessna 210 Centurion II, fui um dos primeiros a me candidatar a realizar tal tarefa. Meu fascínio pelos Cessna's vem de longa data, ainda garoto, quando os via voar aqui pelo estado de Goiás. Aqueles aviões pequenos, de asa alta, eram os "teco-teco" que toda a molecada gostava de ver.

         Minha paixão pela Cessna só veio a aumentar. Ano passado tive a oportunidade de tirar minha licença de Piloto Privado, voando justamente num Cessna. O modelo em questão era o C-152, um monomotor leve, asa alta (característica dos Cessnas monomotores), bi-place lado a lado, de propriedade da EJ Escola de Aviação Civil, em Itápolis, interior paulista.

         Já com o Centurion meu primeiro contato aconteceu naquela primeira parte, quando eu era moleque e visitava os hangares do Santa Genoveva, assim como os da "escolinha", como é chamado carinhosamente o aeródromo Brigadeiro Epingaus (era ali a antiga sede do Aeroclube de Goiás, hoje localizado no Santa Genoveva). Isso nos anos 80!! Lá se vão mais de 15 anos...

         Meu segundo contato com essa aeronave foi numa edição da Aeromagazine, que trazia um ensaio feito pelo Comandante Décio Costa, em que ele chamava o Centurion de "Jipão dos Ares", devido a sua robustez e praticidade, aliado ao baixo custo de manutenção. Ele tinha razão e a Carenado mais uma vez acertou em cheio! Fez um excelente e belo avião! Confira o ensaio!


O AVIÃO

         O Centurion era fabricado, conforme dito, pela Cessna, nos Estados Unidos. É uma aeronave leve de alta performance para 4 ou 6 passageiros. Durante sua produção, inclusive, foi considerado o TOP da linha de produção de monomotores.

         O primeiro vôo deste modelo ocorreu no ano de 1957, mas entrou em produção só em 1959. Um novo modelo, o 210B, recebeu alguns "upgrades", e mais tarde, já chamado de 210D, recebeu um novo conjunto moto-propulsor mais poderoso, incluindo aí também a partir deste modelo, o nome Centurion. O modelo 210F veio com um motor turbocharged. Um outro modelo, o 210G, introduziu no Centurion uma nova asa de estrutura cantilever, aumentou a capacidade de combustível, teve um novo desenho de janelas e superfícies mais largas na cauda. Um contínuo desenvolvimento deste avião ocorreu até o ano de 1985, quando foi lançada a última versão, a 210T. No ano de 1998 a Cessna pensou em voltar a produzir este avião, mas resolveu não fazê-lo.

         O modelo ensaiado é o 210M - Centurion II. Este modelo tem 11,21 metros de envergadura, 8,59 metros de comprimento e 2,87 metros de altura. Peso vazio de 1022 kg e peso máximo de decolagem de 1725 kg. Pode alcançar até 175 nós (velocidade máxima) ao nível do mar ou 171 nós em cruzeiro, com 75% de potência. O teto de serviço é de 17.300 pés e sua autonomia de 855 milhas náuticas.

         Uma das características dessa aeronave na vida real, é o fato de, ao decolar, ocorrer uma forte tendência a sair meio de lado, sendo necessária a utilização dos pedais durante esta etapa do vôo.


O ENSAIO

         Com as informações em mãos, passei a estudar os documentos que acompanham o avião. Tratam-se de arquivos no formato pdf (Acrobat Reader) que trazem as informações sobre o painel de instrumentos, assim como do piloto automático. O painel, vocês verão no decorrer do ensaio, é bem completo e permite realizar um vôo tanto IFR quanto VFR.

         Os demais arquivos englobam: checklist, as especificações da aeronave, performance e os direitos autorais da mesma. Sem dúvida, tudo muito completo. Estes documentos foram todos criados com base em documentos reais da própria Cessna e de pilotos que voaram este modelo.

         Depois de tanto "discurso", chegou a hora de colocar a máquina pra voar. Tinha em mente uma rota a ser voada, para poder realizar um estudo dos dois painéis que acompanham o avião. Na verdade trata-se do mesmo painel que muda para VFR e IFR ao estilo do vôo que se deseja ter. Minha idéia inicial seria fazer uma de minhas navegações: Jundiaí - Rio Claro - Botucatu, trocando a última cidade para Congonhas ou Campinas, afim de realizar a última perna totalmente IFR, um pouso com ILS e verificar como o avião se comportava, mas acabei modificando tanto a primeira, quanto a última e explico minha atitude: a Microsoft deixou o aeródromo de Jundiaí "afundado" de novo nesta versão. É praticamente impossível pousar pela pista 17 devido ao "morro" que se tem por ali. O interessante é que o morro do Japi é na 35 (e ele está lá! Só não sei de onde a Microsoft arrumou um morro no "pé" da 17).

         Se decolar de Jundiaí não era uma boa idéia, optei por decolar do Campo de Marte, aeródromo próximo dali (aliás, o Aeroclube de São Paulo costuma utilizar a pista de Jundiaí para algumas manobras de treinamento). Partindo dali, eu poderia realizar um toque e arremetida em Rio Claro, que possui uma excelente pista de terra (quando tirei meu PP, em janeiro/fevereiro de 2002, havia um estudo para um novo aeroporto em Rio Claro) e finalizar meu ensaio em Campinas, fazendo a última perna IFR com pouso na pista 15 por ILS. Rota traçada, plano de vôo preenchido! Aperte os cintos e bem vindo a bordo!

         Estou com o 210M, de matrícula N61906, estacionado no Campo de Marte (SBMT) e realizo o walk around na aeronave, com flapes abaixados. Realmente a Carenado caprichou no avião. Todo modelado em GMAX, possui texturas simples mas extremamente bem feitas. Como as portas estão abertas, é possível ver parte do painel, assim como os dois personagens (piloto e co-piloto) que estão no avião, igualmente muito bem detalhados.

         SHIFT+E, portas fechadas e vamos dar início ao vôo. O checklist que o acompanha é muito bem feito e completo. Não poderia deixar de ser, já que foi feito com base no checklist do avião, de propriedade de Alfredo Desmadryl, de Santiago - Chile. Há uma foto da aeronave no final do checklist. Before Start, starting engine... checks feitos! Inicio meu táxi para a pista 30 do Campo de Marte. Uma das coisas que me impressiona é a qualidade do som! Realmente muito bem feito! Mas vamos tirar a máquina do chão!

         Colo a manete no painel e sinto o avião querer comer asfalto muito rápido! Realmente não dá pra comparar o motor dos outros Cessnas que já havia voado na vida com o motor deste Centurion! É muito motor! Rapidamente estou com 60 nós e chegando aos 70, rodo o avião, que sai do chão com bastante sutileza. Uma nota a ser citada: a aeronave "puxa" pra esquerda, tentando simular o que realmente acontece na vida real, devido à tração do conjunto moto-propulsor. Basta calçar um pouco pra direita (na vida real o avião pede mais calço) que ele volta à posição inicial.

         Mantenho uma velocidade entre 80 a 90 nós de subida, logo após ter efetuado o airborne. Passados 600 pés aproximadamente, recolho o único dente de flape utilizado na decolagem, trem em cima e realizo curva à direita com o intuito de passar pela minha primeira referência (esta primeira perna é a parte "visual" do vôo): pedágio da Bandeirantes. Obviamente não teremos esta referência no simulador, então vamos nos preocupar com nossa segunda referência: o aeroporto "afundado" de Jundiaí.

         Vou mantendo subida em rota, mantendo agora uma velocidade entre 100 e 110 nós. Realmente não dá pra comparar os motores dos 3 Cessnas que já voei! O do Centurion, óbvio, é o mais potente deles e verifico isso também no simulador. Reduzo o motor para 25 polegadas, mantendo o rpm em torno de 2500 rotações, mistura rica e cowl flaps abertos. Minha idéia é nivelar no FL065.

         Acredito gastar entre 40 a 45 minutos para percorrer a distância de São Paulo a Rio Claro, mantendo uma velocidade de cruzeiro de 155 nós. Meu plano de vôo é: após decolagem, curva à direita no rumo 340 com destino a Rio Claro. Bem simples! Durante o trajeto, irei passar por Jundiaí, Campinas, Americana, Limeira e enfim, Rio Claro.

         Continuo impressionado com a realidade do avião. Simulei uma decolagem com 50% dos tanques cheios, peso para 2 pessoas (calculando 80 kilos para cada uma) mais pouca bagagem e o avião parece uma bala! A subida é muito rápida e em menos de 5 minutos atinjo no FL065. Confesso que poderia estar fazendo esta perna em um nível mais alto. Nivelo o Centurion, fecho o cowl flap, não reduzo a manete de potência, mas ajusto o passo de hélice, fazendo o RPM cair para em torno de 2400 RPM (o manual pede para não exceder 75% da potência) e mistura levemente empobrecida. O avião atinge rapidamente 155 nós, estabilizando em 160 após alguns minutos. Isso me leva a crer que poderei fazer esta perna num tempo menor do que o previsto. Vale a lembrança: estamos fazendo o vôo na nova versão do Flight Simulator (FS2004) e como ainda não fizemos um review completo do mesmo, optei por voar com tempo todo limpo e sem ventos.

         O painel VFR é bastante simples e apresenta os seguintes instrumentos: VOR 1 e 2, horizonte artificial, giro direcional, pau e bola, velocímetro, variômetro, gauge de indicador de temperatura dos gases de exaustão, além de rádio e transponder. Como estamos utilizando o painel VFR, possuo uma ampla visão de todo o terreno. Vou efetuando mudanças de visão para poder acompanhar cada passagem de nossa aeronave a cada uma das cidades sobrevoadas. Parece que foi ontem que estava passando por aqui com o Cessna 152 da EJ (escola de aviação civil)!

         Fui escrevendo este ensaio em um caderno, para depois poder publicá-lo e assim poder acompanhar todas as características do avião. Me diverti tanto relembrando a época do meu PP, passando por todas estas cidades, que quando vi, já estava próximo de Rio Claro (já havia passado Limeira). Confesso que do lado de cá do computador, fiz todas as fonias, como se realmente estivesse voando.

         Uma das coisas que percebi nesta aeronave: o avião não só na decolagem, como em todo o vôo, me pediu pedal pra direita. Ele puxa muito para a esquerda, gerando um leve incômodo. Não tive paciência de ficar toda hora corrigindo minha proa e assim que passei Jundiaí, apelei para o piloto automático.

         O som é outra coisa que você percebe logo de cara. Simplesmente nota 10! Reduzo toda a potência para efetuar a descida e o alarme para me indicar que não baixei o trem de pouso soa na cabine e coloco a manete levemente à frente para fazer parar o alarme. O assovio do vento é muito parecido com o da realidade!

         Vindo de São Paulo, Jundiaí, Campinas ou das outras cidades que deixamos para trás, caímos quase que na perna do vento da pista 21 de Rio Claro. Realizei uma leve curva à direita para ficar paralelo à pista e assim que a velocidade cai abaixo de 90 nós, dou o primeiro flape. Efetuo o "Before Landing Checklist", giro base e na finalíssima jogo mais um dente de flape, agora com a velocidade em 75 nós. No arredondamento ela cai para 70/65 nós e efetuou o toque. Pousar o Centurion da Carenado não é tão simples quanto pousar os Cessnas padrões do Flight Simulator. O Centurion insiste em puxar para a esquerda, o que dificulta um pouco as coisas.

         Efetuado o toque, novamente colo a manete de potência no painel e tiro um dente de flape. Aproveito para conferir o combustível restante e como o 210 já estava embalado, levei muito pouco tempo para rodar. Trem em cima, passados 500 pés, inicio curva à esquerda rumo à Campinas.

         O retorno vai ser feito no nível 100. Pode parecer estranho fazer a primeira perna no FL065 e retornar, fazendo uma perna menor, em um nível bem maior (FL100), mas eu poderia ter feito a primeira perna em um nível mais alto, já que o Centurion se mostrou altamente competente pra subir, ainda mais com o avião leve do jeito que estava.

         A subida foi mais rápida e em 8 minutos e meio estava nivelado no FL100. Como Campinas estava bem mais próxima que Marte (daquele ponto seriam aproximadamente mais 30 milhas náuticas), deveria iniciar a série de estóis o mais rápido possível. Mistura rica, com o avião limpo (sem nenhum dente de flap), trago toda a manete para trás e lá vem aquele zumbido me avisando "ou, esqueceu de baixar o trem!". Paciência... Trago o manche para trás e vejo a velocidade caindo, caindo, caindo... e pimba! lá vem o sinal de stall! O avião pede pra cair com 55 nós aproximadamente! Nariz embaixo, manete de potência à frente, volto a nivelar. Realizo mais três testes de stall: com 1, 2 e 3 dentes de flape e anoto as seguintes velocidades, respectivamente: 47, 42 e pouco menos de 40 (o indicador pára nos 40). Confesso que senti falta dos pedais nessa hora, pois o avião já pede pra ser domado durante todo o vôo, no stall então, foi difícil segurar o Centurion. O interessante é que iniciei os testes de stall nivelado no FL100 e saí depois dos 3 testes no FL095!

         Volto a nivelar o avião, abaixo o trem de pouso e lá vamos nós novamente realizar mais um teste de stall. Com trem baixado e sem nenhum flap, a velocidade de stall ficou em 60 nós. Com os flapes baixados, as velocidades ficaram respectivamente em: 1 dente - 60 nós, 2 dentes - 49 nós, 3 dentes - 43 nós.

         Campinas está a minha frente a 15 milhas e resolvo seguir direto para Viracopos (SBKP), me guiando tanto pelo ADF quanto pelo VOR. Inicio a descida e lá vem a buzina de stall de novo! Uma leve "manetada" e tudo fica em paz novamente. Conforme havia dito, irei efetuar um pouso por instrumentos (ILS) e acabo de me recordar que havia formatado a máquina há poucos dias! Sem problema! Enquanto o avião seguia tranqüilamente sua descida, tive tempo de abrir o Internet Explorer e verificar a carta no site www.scaldaferri.com.br, excelente por sinal, que possui diversas cartas de todos os cantos do país e também do mundo! Ficam meus parabéns!

         Carta da 15 na tela (Charlie 1) que me indica: LOC em 110.30 no curso final 146 graus. Aeródromo com 2170 pés. De Rio Claro à Campinas, o rumo certo é 164 graus, ou seja, estou quase que "de cara" com a final da 15. Efetuo a descida até 3.500 pés pouco antes do marcador externo (Bento, 370.0 NDB), baixo o primeiro dente de flape. Passando BENTO, trem embaixo e sigo tranqüilamente para o pouso! Para matar um pouco a velocidade, baixo mais um dente de flape e venho trazendo o avião na mão. Passo JARDIM (300.0 IP) e em poucos segundos, vem o toque na 15 de Viracopos. Livro a primeira a direita e vou até o pátio de estacionamento, onde efetuo o corte dos motores.

         A Carenado está, mais uma vez, de parabéns pelo ótimo trabalho desenvolvido. Tanto o avião quanto a documentação que vem no pacote estão muito bem trabalhados. O cockpit virtual funciona direitinho, o som está perfeito, o avião é todo com moving parts, os passageiros da aeronave são muito bem detalhados, enfim, é um belo pacote para quem gosta de aeronaves leves.

         Para finalizar, este ensaio me fez lembrar de uma coisa: meu PP vence em fevereiro do ano que vem, ou seja, preciso renová-lo! Alguém tem alguma dúvida onde estarei fazendo isso?

         Gostaria de deixar um agradecimento especial ao amigo Caio Tafuri, de Sorocaba, que me ajudou bastante com informações desta aeronave! Valeu Caio!



SCREENSHOTS

Cessna Centurion - Carenado

Cessna Centurion - Carenado

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