Reportagens

Aerovirtual visita o GRPAe da PM de São Paulo
Texto: Alfredo Costa
Data: 31/07/2003

AGUIA 6

         Sexta-feira, 6 de junho de 2003. Quase todo pessoal da equipe Aerovirtual em São Paulo para nossa ida à EAB-2003 em Araras. Fora o Eduardo Merhi e o Sérgio (Ben-Hur) que não puderam vir, aqui estiveram o Paraizo, que veio de Vitória; o Wanthuyr, do Rio de Janeiro; o Keyton, de Fortaleza e o Thiago, de Goiânia. Estiveram presentes também o Paulo Cesar, irmão no Paraizo e o Bruno Boareto, primo do Thiago. Aqui de São Paulo, marcaram presença o Bruno Pivato, Gilvan, Elcio Ribeiro, Vanderlei (PT-VAN), nosso amigo Jota A da Alugvan, eu (Alf) e minha mulher (Marcia). Reunimo-nos na Churrascaria Fogo Gaúcho, próxima ao Aeroporto de Congonhas para um almoço de confraternização. Depois de muito papo, muita picanha, maminha, alcatra e algumas outras 'coisinhas', saímos com alguns quilos a mais em direção ao Campo de Marte. Como combinado, por volta das 15:00h lá encontramos o Vanderlei (PT-VAN) que conseguiu; graças à amizade que possui junto ao comando do Grupamento de Radiopatrulha Aérea 'João Negrão' da Polícia Militar do Estado de São Paulo (Grupamento Águia) uma visita às instalações do mesmo. Carros estacionados, adentramos na sede do GRPAe. Fomos muito bem recebidos e após uma vista da maquete das futuras instalações do grupamento, foi-nos apresentado o Tenente Tasso, que nos encaminhou para uma sala onde exibiu um vídeo de apresentação da corporação. Com extrema simpatia, colocou-se à disposição para que efetuássemos perguntas e deu-nos uma verdadeira 'aula' sobre as atividades desenvolvidas por eles. É de extrema importância que conheçamos esse trabalho excepcional desenvolvido por essa corporação e é este o motivo deste relato: Divulgar para os amantes da aviação (virtual ou real) as atividades do grupamento e um pouco de sua história.

         É fantástico o trabalho realizado pela equipe. Uma atividade que deve propiciar ao pessoal envolvido um alto grau de satisfação profissional e pessoal. Assim como o Corpo de Bombeiros, o GRPAe é reconhecido pela população paulista como um grupo de heróis anônimos. Uma elite de profissionais altamente qualificados, tornando-os reconhecidos e respeitados por todos. Há casos de pousos e decolagens inacreditáveis e não são poucos os que chamam esses pilotos de 'malucos'. Na realidade o que há é muita capacitação técnica, perícia e alto grau de treinamento e especialização, nada havendo de 'maluquice' em suas atividades, apesar de que estas, inegavelmente, envolvem riscos consideráveis.

         Nessa visita, ficamos sabendo que numa cidade gigantesca como São Paulo, há a necessidade que a polícia ou o socorro, cheguem, não só por força de expressão, mas literalmente: voando. Os helicópteros do grupamento realizam um grande número de serviços à população. Dentre eles: Missões policiais; orientações de trânsito; controle, fiscalização e preservação do meio ambiente; combate a incêndios florestais; ações de defesa civil; busca e salvamento; resgate e remoção aeromédica; transporte de órgãos humanos para transplantes e vários outros. Faz parte do cotidiano da cidade a visão dos 'Águias' no céu a caminho de uma missão. Vemos todos os dias pelas reportagens na TV essas equipes em atividade e acostumamo-nos de tal forma a assisti-las que, como disse: Tais cenas acabaram fazendo parte do nosso dia-a-dia.


ÁGUIAS EM ATIVIDADE

Grupamento ÁGUIA - PM de São Paulo
Sobrevoando a Av. 23 de Maio

Grupamento Águia - PM de São Paulo  Grupamento Águia - PM de São Paulo
Obelisco no Parque do Ibirapuera                          Monumento e Museu do Ipiranga

Grupamento Águia - PM de São Paulo
Av. 23 de Maio próximo ao Viaduto da Rua Tutóia

Grupamento Águia - PM de São Paulo
Operação de resgate em estrada

         Desde 1988, os helicópteros vêm atuando no litoral paulista na chamada "Operação Verão", atuando em apoio às lanchas do Corpo de Bombeiros. Centenas de vidas já foram salvas desde então. O interessante é a informação que nos foi fornecida: Apenas na temporada 98/99, foram retirados do mar 145 banhistas em situações de afogamento e de lá para cá, contrariamente ao que seria de se esperar, esse número vem diminuindo de forma considerável. Como nos explicou o Tenente Tasso: A intenção da Polícia Militar não é aumentar o número de resgates, mas sim diminuí-los ao máximo com um trabalho intenso de prevenção. Os helicópteros literalmente 'grudam' nos banhistas ou pescadores em situação de risco e forçam-nos a abandonar o local. A sinalização efetuada pela equipe de bordo e a pressão psicológica de um helicóptero agitando as águas a poucos metros sobre o cidadão, faz com que os mais afoitos e teimosos acabem por desistir de suas atitudes arriscadas.

Grupamento Águia - PM de São Paulo

Grupamento Águia - PM de São Paulo
Operação Verão

         Incorporadas ao Resgate desde 1990, as tripulações dos Águias agem em conjunto com as equipes de bombeiros e da saúde. Na maioria dos casos, os helicópteros são os primeiros a chegar em locais de acidentes e prestam os primeiros socorros em atendimento a vítimas de acidentes e contam com médicos e enfermeiros que fazem parte das equipes que realizam essas missões. Com uma mini-UTI a bordo, a tripulação socorre e resgata as vítimas, levando-as rapidamente a hospitais próximos onde uma equipe já estará de prontidão no heliponto. Milhares de vidas já foram salvas graças a esse sistema.


POUSANDO NO HELIPONTO DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS

         A história desse grupamento é muito antiga. A aviação da Força Pública de São Paulo, hoje Polícia Militar, teve suas origens no começo do século passado. A Escola de Aviação foi criada em 17/12/1913 e estava sediada no Campo do Guapira, na zona norte de São Paulo. Sua direção ficou a cargo de Eduardo Pacheco Chaves (Edu Chaves), o primeiro latino-americano a se brevetar em 1910 pela Escola de Aviação da França (primeira do gênero) e considerado, na época, o maior aviador das Américas.

         Em 1920, a Escola foi transferida para o Campo de Marte, onde permaneceu até 1930 quando foi extinta por ato do Interventor Federal no Estado. A aviação paulista participou de várias ações nos movimentos deflagrados em 1924, 1926 e principalmente na Revolução Constitucionalista de 1932, quando criou vários campos de pouso no interior dos Estados de São Paulo, Mato Grosso e Goiás, o que muito contribuiu para o desenvolvimento dessas regiões.

         No ano de 1983 em São Paulo, ocorreram várias manifestações públicas de protestos com depredações e saques a estabelecimentos comerciais. Houve um aumento considerável dos índices criminais. Com dificuldades para controlar a situação e com poucos meios disponíveis, a polícia apelou para o uso de helicópteros a fim de ajudar no restabelecimento da ordem pública e contenção da criminalidade. Imediatamente o Governo do Estado, reconhecendo a eficiência do uso desse equipamento, resolveu adquirir dois aparelhos, sendo um para a Polícia Militar. Em 15 de agosto de 1984 foi entregue a primeira aeronave: O "Águia 01", ou Águia Uno e assim foi criado o Grupamento de Radiopatrulha Aérea. Em 1995, a Unidade passou a denominar-se Grupamento de Radiopatrulha Aérea João Negrão, em homenagem ao oficial da antiga Força Pública que foi membro da tripulação do Jahú, que realizou heróica travessia do Atlântico em 1927 (ver matéria).

         Atualmente o GRPAe conta com uma frota de 12 helicópteros "Esquilo HB350B/BA"; 1 EMB810 "Sêneca"; 1 Cessna 210 "Centurion" e 1 Beechcraft A36 "Bonanza".

         Saindo da sala onde nos foi propiciado conhecimento das atividades e da história do grupamento, saímos para o pátio, para conhecermos de perto essas maravilhosas máquinas voadoras. Uma feliz coincidência ocorreu. Durante a apresentação do vídeo e do bate-papo que se seguiu, foi feito comentário pelo Jota A sobre uma missão de resgate que ele presenciou nas proximidades de sua residência, onde um helicóptero realizou uma operação de pouso e decolagem num local onde (ele achava), isso seria impossível. Segundo o Jota, ele e todos que presenciaram a ação ficaram literalmente "de boca aberta" assistindo aquilo que mais parecia cena de ficção de algum filme com os exageros típicos das produções de Hollywood. O Tenente Tasso nos informou que o comandante do aparelho naquele episódio fora o Capitão Gaspar. Logo que saímos para o pátio, encontramos 'o próprio'. A partir de então, o Capitão Gaspar passou a ser nosso cicerone e nos mostrou com detalhes as aeronaves e os equipamentos sofisticados que são utilizados pelas equipes.

         Conhecemos esses equipamentos. A seguir, uma breve descrição e fotos dos mesmos:

Puçá

         Consiste numa rede de cordas presa numa armação de metal. Sua fixação é num gancho externo na aeronave, que tem capacidade para sustentar 750 Kg. Tem por função realizar salvamentos no mar, geralmente quando a vítima está desacordada ou semi-consciente e não consegue agir para se salvar.

Cesto

         É uma gaiola de correias de tecido com uma abertura para entrada, e que serve para o transporte de pessoas externamente. É usado geralmente quando não é possível o pouso e o embarque normal, como em casos de pessoas ilhadas em enchentes ou em áreas de risco. O modelo utilizado foi desenvolvido no próprio GRPAe e pode receber até um máximo de quatro pessoas (embora o normal sejam apenas duas), sendo que um será sempre policial para orientação de vítimas a serem socorridas.

Grupamento Águia - PM de São Paulo   Grupamento Águia - PM de São Paulo
Puçá                                                       Cesto

FLIR ("Forward Looking Infra Red" ou Sistema de Visão Infravermelha à Frente)

         Apesar do nome, o equipamento inclui um "pod" acoplado ao dorso da aeronave e que tem campo de visão de 360°. As imagens são mostradas numa tela de TV na cabine, sendo geradas pelo calor dos objetos e corpos. O FLIR permite, por exemplo, localizar um criminoso escondido no mato, na noite mais escura, ou até saber se um carro já estava estacionado ou acabou de chegar, através do calor emitido pelo motor.

   

Holofote ou Farol de Busca

         Seu feixe de luz tem mobilidade de 180°, e o canhão de luz funciona com potência de 450 watts, o que lhe dá capacidade de iluminar uma área do tamanho de um campo de futebol.

  

"Bambi Bucket"

         Equipamento desenvolvido para combate a incêndios florestais. Tem capacidade para transportar 500 litros d'água que é liberada por um mecanismo elétrico acionado pelo piloto da aeronave. Tem sido utilizada também para o combate a incêndios urbanos de grandes proporções.

Mcguire

         Técnica utilizada para resgatar vítimas em locais de difícil acesso. Consiste no lançamento de dois tripulantes através de cabos de mesmo comprimento. Para evitar o efeito pendular acentuado e desincronizado, os tripulantes permanecem juntos. Técnica utilizada para resgatar vítimas em locais de difícil acesso. Consiste no lançamento de dois tripulantes através de cabos de mesmo comprimento. Para evitar o efeito pendular acentuado e desincronizado, os tripulantes permanecem juntos.

  
"Bambi Bucket"                                                           Mcguire

CONTINUAÇÃO DA VISITA

         Após visita aos helicópteros, equipamentos e atividades exercidas pelo grupamento, o Capitão Gaspar nos levou até o hangar onde está o hidroavião Savoia-Marchetti S-55, o JAHÚ e contou-nos com riqueza de detalhes a história do avião, do absurdo de sua atual situação e do heróico vôo feito há quase 80 anos pelos brasileiros João Ribeiro de Barros, João Negrão, Newton Braga e Vasco Cinquini, que nos inspirou a pesquisar um pouco sobre o assunto e a escrever uma matéria para a AeroVirtual, divulgando essa importante página da história da aviação brasileira e mundial.

         Noite fechada, após 'milhares' de perguntas feiras ao Cap. Gaspar, principalmente pelos mais 'curiosos': Elcio e Jota A. - Efetuamos as despedidas, conhecendo na saída o comandante da corporação, Coronel Otacílio, que também foi extremamente simpático e atencioso para conosco.

         Aproveito e agradeço em meu nome e em nome de todo grupo que lá esteve a atenção, a paciência e a cordialidade demonstrada por todos que nos receberam nessa visita, motivo de muito orgulho e satisfação: Sabermos que contamos no Brasil com uma corporação como o Grupamento de Radiopatrulha Aérea João Negrão da Polícia Militar do Estado de São Paulo, digna de figurar entre as melhores e mais eficientes do mundo.

DADOS COMPLEMENTARES SOBRE O GRUPAMENTO

Pilotos

         O quadro de pilotos do Grupamento de Radiopatrulha Aérea é composto por Oficiais da Polícia Militar, formados pela APMBB (Academia de Polícia Militar do Barro Branco) e que freqüentaram o CFO (Curso de Formação de Oficiais).

         Além do pré-requisito acima, para ser piloto policial, o oficial deve se submeter a um rigoroso processo de seleção, onde são incluídos exames de condicionamento físico, intelectual, psicológico e de saúde. Após reunidos os resultados obtidos nestas fases, o candidato é avaliado também por uma comissão composta por especialistas na atividade policial aérea, onde é verificado o potencial de entrosamento com as atividades da unidade, tanto operacionais quanto administrativas.

         Após aprovado, o oficial aluno freqüentará, inicialmente, o "Curso de Especialização de Oficiais - Piloto Policial de Helicópteros", onde são ministradas as matérias essenciais que serão colocadas à prova na "Banca de Avaliação do DAC", para a obtenção do Comprovante de Conhecimento Teórico de "Piloto Privado de Helicóptero". Numa segunda fase, o oficial aluno, agora já de posse do Comprovante de Conhecimento Teórico, deverá freqüentar outro curso, o "Curso de Especialização de Oficiais - Comandante de Operações" para que some ao ensinado, conhecimentos que o capacitem a assumir a função de Comandante de Operações e 2p (segundo piloto), nas diversas missões executadas pelo GRPAe.

         Após uma longa fase de adaptação e aperfeiçoamento, o segundo piloto, que deverá já ter acumulado vasta experiência de vôo, iniciará o próximo passo: o "Curso de Especialização de Oficiais - Pilotagem Avançada de Helicópteros Policiais", que unido ao limite de 500 (quinhentas) horas de vôo ou mais, o capacitará a assumir o comando da aeronave, concluindo assim a sua formação. O tempo total estimado para a formação de um comandante de aeronave policial está entre 3 (três) e 4 (quatro) anos.

Tripulantes Operacionais

         Tripulante operacional é a designação dada à praça que, após ter concluído o curso "Curso de Especialização de Praças - Tripulante Operacional", realizado anualmente no GRPAe, passa a compor a equipe operacional que atua embarcada na aeronave, nas diversas ocorrências atendidas pelos "Águias" (helicópteros da Polícia Militar do Estado de São Paulo).

         Para a realização do "CEP - Tripulante Operacional", é estabelecido um processo seletivo direcionado às praças das Polícias Militares dos Estados e Policiais Civis, bem como aos componentes das Forças Armadas. Na seleção, os candidatos são submetidos ao "Teste de Aptidão Física", aplicado na Polícia Militar do Estado de São Paulo, além de prova de adaptação na água e em ambientes elevados. Numa segunda fase, os candidatos serão encaminhados ao serviço psicológico da Polícia Militar, onde será verificado se suas características se enquadram no perfil do tripulante operacional.

         O curso tem duração aproximada de um mês, quando o aluno adquire conhecimentos técnicos que o capacitam a desempenhar suas funções a bordo das aeronaves do GRPAe.

         Concluído o curso, a sua incorporação ao efetivo do GRPAe (no caso de Policiais Militares do Estado de São Paulo), ficará vinculada a fatores diversos, tais como: capacidade técnica, intenção profissional, política de recursos humanos das unidades envolvidas, etc.

         O GRPAe já formou centenas de alunos da Polícia Militar do Estado de São Paulo e de outros Estados do Brasil, polícias civis e praças das Forças Armadas.

Mecânicos

         O GRUPAMENTO DE RADIOPATRULHA AÉREA tem na sua composição organizacional, a Divisão de Manutenção Aeronáutica, criada para o cumprimento dos serviços relacionados à manutenção dos helicópteros e aviões da Unidade. Tal setor, subordinado diretamente ao Subcomandante do GRPAe, realiza hoje o controle e a administração das manutenções e inspeções as quais, obrigatoriamente, as aeronaves devem ser submetidas em oficinas homologadas, necessárias à sua perfeita disponibilidade para o atendimento da enorme gama de missões a serem cumpridas. No seu quadro de mecânicos, existem policiais militares especialmente instruídos na área de mecânica de aeronaves, e nos seus diversos ramos específicos. Para a composição da equipe, os policiais militares se submetem a um processo seletivo, interno à Corporação, onde serão aproveitados aqueles que reunirem alguma experiência, mesmo que básica, na área de mecânica de aeronaves exigindo-se a devida habilitação, através de exames em Banca de Avaliação do DAC - Departamento de Aviação Civil. Através da Seção de Ensino e Instrução, do GRPAe, estes mecânicos passarão por fases de treinamento e instrução, freqüentando cursos dentro e fora da Polícia Militar do Estado de São Paulo, adquirindo conhecimentos específicos para o serviço nas aeronaves do Grupamento.

         Informações e parte das fotos extraídos do site do Grupamento de Radiopatrulha Aérea João Negrão da Polícia Militar do Estado de São Paulo: www.polmil.sp.gov.br/unidades/grpae/.

Informações:
Telefone/Fax: (011) 6221-7299 - Setor de Relações Públicas
Endereço: Av. Santos Dumont, 1979 - Setor B - Campo de Marte - São Paulo - SP - CEP: 02012-010 - Brasil

FOTOS DA AEROVIRTUAL

         Confira aqui as demais fotos tiradas por ocasião de nossa visita. Por Vanderlei Schiavolin.